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14h00

Deixem Mãe Stella

Na semana passada, a imprensa deu, por justa razão, foi notícia de interesse, ampla cobertura à crise envolvendo o Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, que tem a sacerdotisa, mãe Stella de Oxóssi, como sua condutora e ícone. Não conheço mãe Stella, somente em rápidos momentos de encontros, mas sempre me passou a ideia de uma senhora equilibrada, sensata e sábia. Assim, não vejo razão para se questionar decisões pessoais, de quem deu toda a vida a colocar a sua religião em evidência intelectiva, por força de sua cultura e de sua incontestável liderança religiosa.

Não sei, não conheço as praxes, regras e direcionamentos de um terreiro de candomblé sobre suas lideranças. Todavia não concebo uma senhora, lúcida, que, repito, viveu a sua religião a colocando com destaque em uma sociedade tão preconceituosa, tão racista, não possa optar, ao final, pela lógica da natureza, da sua vida, em descansar, ter paz, sair de zonas de conflito e sossegar o seu coração.

Li aqui em A TARDE, recentemente, no Espaço do Leitor, um senhor de nome Adriano dizer ipsis litteris que “...fiquei chocado ainda assim ao saber que líder do movimento negro e candomblé não era uma senhora casada e com filhos, mas que vive com outra mulher. Ainda que possa ser que ela tenha sido casada com alguém no passado e tenha filhos naturais”. Mais adiante, no texto, arremata : “Chocante ver ela afastada do seu lugar de direito alegando ‘pressões’”. Ora, o cidadão, em seu direito de opinar, não se dá o trabalho de ver no próprio texto que ele fala em direito dela, logo o que é do meu direito, eu posso abrir mão. Ademais, é ainda tão lamentável que alguém possa julgar a capacidade de outrem, de liderar, de ser exemplo por força de sua orientação sexual de momento, ou de toda uma vida.

Essas manifestações só registram, de fato, o grau de ignorância, de incompreensão queopovo brasileiro tem da sua própria sociedade, dos seus valores, sem ao menos ver o outro de forma mais solidária, mais fraternal.

Não poderia, então, ser diferente o resultado do estudo intitulado Perils of Perception (Perigos da Percepção), realizado há cerca de um ano com 33 nações de todos os continentes.

O Brasil ficou em terceiro lugar, entre todos, como sendo o país que menos sabe sobre a sua própria situação, conceitos e reais valores, ou seja, o Brasil não tem uma cultura de autoidentificação, mas, digamos, de achismos casuísticos, nascidos de percepções próprias sobre o seu entorno.

A verdade é que adoramos uma fofoca, de disseminar o que não sabemos e, como dizem os mais antigos, de cuidar da vida dos outros. A nossa visão de vida ainda é profundamente provinciana e sem qualquer sentido de real alteridade. Mas é Natal.

 

José Medrado

Mestre em família pela Ucsal e

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