Quinta, 09 de setembro de 2010 - 20:38

Medrado na mídia

Artigo publicado no Jornal A Tarde

 


Claudia Leitte e os gays (Coluna Opinião)

Ainda hoje, as colocações de Cláudia Leitte, tidas como homofóbicas, repercutem Brasil afora: "Eu adoro os gays, mas prefiro que meu filho seja macho". Depois, o marido da cantora, Mário Pedreira, acrescentou: "Deus me livre (do meu filho ser gay). Ele será bem-criado. Em seguida, houve o tal não foi bem assim, não quero ferir pessoa alguma, desculpas...

É elementar, em comunicação, a consciência de que as palavras têm peso, razão pela qual precisam ser bem ponderadas no seu uso. No entanto, guardo preocupação com a atitude policialesca dos defensores da correção política, posto que, e a cada dia, notamos que pela dinâmica da própria língua a neutralidade deixa de ser objeto a ser buscado, uma vez que sentimos os ares mais firmes de um regime democrático que vem se estabelecendo, animando-nos a expressar o nosso pensamento.

É fato, portanto, que a livre expressão deve ser uma defesa férrea dos que primam por uma atitude de liberdade ampla e irrestrita, o que, no entanto, não quer dizer livres os seus autores de assumir as conseqüências dos seus "sem querer". Parece-me, no entanto, que ainda guardamos um infeliz interesse naquilo que nos atende, nos interessa ou nos atinge diretamente, não ampliando o foco para uma visualização do global, do conjuntural.

Desta forma, a politização da linguagem é, penso, a inversão de regras ditatoriais que antes (na ditadura) coibiam toda e qualquer liberdade, para hoje serem pautadas pela conveniência das partes interessadas em não verem os seus processos afirmativos desrespeitados e desconsiderados. Não deixa de ser uma ditadura às avessas.

Posicionemos, então, acionando o nosso status de cidadãos, em uma democracia, para fazer valer a corrigenda do que julgamos ter sido excesso de liberdade, em possível atentado a valores de respeito recíproco, pedra fundamental da harmonia plural que deve existir em uma sociedade que se preza pela conjugação de esforços na manutenção da urbanidade em todos os quadrantes de uma vida de respeito aos direitos comuns.

Desta forma, entendo que Cláudia Leitte tem o direito a não querer um filho gay, da mesma forma que poderia não querer uma filha loira, ruiva... por motivos que o seu entendimento da vida determina, mas é claro que ela tem a obrigação de expressar o seu entendimento de forma que não fira, que não ofenda quem guarde o padrão rejeitado em sua manifestação.

Ora, ora, se temos o respeito às diferenças e às opiniões como uma exigência dos Direitos Humanos, é preciso lembrar, então, que lutar por igualdade é uma afirmação de que todo o ser humano possui um conjunto de direitos fundamentais ou naturais imutáveis: liberdade, dignidade. Em rigor, todavia, não faz sentido falarmos de respeito às diferenças, se não toleramos uma opinião, ainda que calcada em valores limitados. Todas as convicções e idéias são legítimas porque produto de homens livres e com os mesmos direitos. Busquemos no que somos afetados o reparo da lei.

José Medrado é mestrando em família e membro da Academia Brasileira de Ciências Mentais