Quinta, 09 de setembro de 2010 - 22:20

Medrado na mídia

Artigo publicado no Jornal A Tarde

 


Erro da Bíblia? (Coluna Religião)

Algumas pessoas me acham irreverente, desrespeitoso, contestador, até debochado, tudo porque sou um questionador. Não aceito, de forma alguma, como indício de verdade tudo aquilo que não convença a minha lógica, o meu discernimento. É claro que os “pollyanas” da vida ficam em cólicas, têm síncope nervosa quando faço colocações, citações que venham bater em suas “verdades”. É natural, pois fico imaginando a construção idealística de uma vida em cima de uma pessoa ou das suas pregações, ou ainda sobre “verdades” construídas a duras penas de suas idealizações e aí, de repente, vem um palhaço e fala, escreve uma série de coisas que vão pôr tudo isso em xeque. Absurdo! As pessoas querem continuar com as suas expectativas em cima de seus conteúdos, ainda que sejam todos eles eufemismos ou falácias. Talvez valha para esses “pensadores” o quero me iludir para ser feliz.
    
Não me arvoro, de forma alguma, a ser dono da verdade, mas gosto de pensar e fazer as pessoas pensarem, pois só o pensamento cristalino, livre das amarras preconcebidas que, entendo, efetivamente liberta o homem de fantasias que lhes foram impostas, principalmente pelas religiões e seus representantes.
   
No livre pensar, guardamos o bastião da nossa verdadeira liberdade, que não pode ser prostituída por interesse algum, nem o de agradar a grupos, muito menos a pessoas, individualmente. É assim que me insurjo contra o que não entendo ou penso não ter sentido.
   
Vejamos: é claro que Jesus não nasceu em dezembro, isto já está mais que sacramentado, mas o que dizer do conflito entre as narrativas de Lucas e Mateus acerca do lugar onde estava Jesus após o seu nascimento? O primeiro diz no capítulo 2:7  “e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria”, já o segundo 2:11 “Entrando na casa, viram (os reis magos) o menino com Maria, sua mãe. Prostrando-se, o adoraram; e, abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra.” A verdade que sabemos é que os reis magos chegaram logo após o nascimento de Jesus, guiados que foram por uma estrela; a configuração dos presépios também nos leva a esse entendimento. Ora, não há como entender que eles, os reis magos, chegaram com o menino já em casa, fora da manjedoura, isto porque, inclusive, esses reis foram conduzidos por uma estrela, e toda a narrativa antecedente de Mateus nos leva à concepção de que tudo ocorreu logo após o nascimento.
   
Assim, claro, fica patente o desencontro entre os narradores. Sei, sei, o importante é o fato em si, não o que sucedeu precisamente. Todavia, esta pequena mostra traz, em verdade, apenas a certeza de que a letra bíblica não é, como muitos pregam, uma verdade irretorquível, claro que não. É um livro que fora mexido e remexido pelos interesses dos poderosos de sempre, de acordo com os seus proveitos de toda a natureza. Inclusive, também, acresça-se a isso os problemas de tradução, lógico, com toda a sua complexidade e dificuldades.
   
Pensemos, pois, com a lógica, com a razão, para que a nossa fé seja pautada em bases sólidas e nunca ilusórias.

José Medrado é médium, fundador e presidente da Cidade da Luz