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09h01

Quando o céu vira palanque

O homem sempre arrastou Deus para a sua vida, hora O questionando sobre suas desditas, hora atribuindo a Ele suas conquistas, quando não o endividava agradecendo um copo com água com um sonoro: Deus lhe pague. Mas, agora, a inovação ou apropriação, como queiram, foi demais: Diante dos recentes raios que caíram em Brasília durante uma passeata — fenômeno meteorológico amplamente previsto pelos institutos de clima — algo chamou mais atenção do que o próprio evento natural: a pressa humana em transformá-lo em argumento ideológico. Em poucas horas, o céu foi sequestrado. Para uns, tratava-se de castigo divino. Para outros, sinal inequívoco de bênção e aprovação celestial. O raio, antes descarga elétrica, virou marketing.

Essa apropriação simbólica de fenômenos naturais não é nova, mas segue revelando um traço preocupante: a necessidade quase compulsiva de legitimar convicções humanas com a assinatura de Deus. O que deveria provocar silêncio, espanto e respeito diante da Natureza, transforma-se em munição retórica. O céu deixa de ser céu e vira palanque. Há algo de profundamente sectário nessa lógica. Quando alguém afirma que Deus “castigou” ou “abençoou” um grupo específico por meio de um raio, está dizendo, em última instância: “Deus pensa como eu”. Trata-se de uma divindade domesticada, instrumentalizada, reduzida à função de carimbo moral de uma causa. Não é fé — é uso simbólico da Natureza.

Do ponto de vista científico, o fenômeno é claro: instabilidade atmosférica, umidade elevada, descargas elétricas comuns ao período. Do ponto de vista ético, o problema começa quando se ignora a realidade objetiva para sustentar narrativas de poder. Atribuir intenção moral a um evento natural é um atalho perigoso: desresponsabiliza escolhas humanas e transfere para o “céu” aquilo que deveria ser debatido no campo da política, da ética e da convivência social.

Historicamente, sempre que a humanidade explicou o mundo apenas pelo castigo ou favor divino, produziu medo, exclusão e violência simbólica. Raios já foram usados para justificar guerras, perseguições e silenciamentos. Hoje, o mecanismo é o mesmo, apenas com linguagem atualizada e redes sociais mais rápidas. Talvez o verdadeiro sinal a ser lido não esteja no céu, mas em nós. A dificuldade de lidar com a complexidade do mundo sem recorrer a explicações mágicas convenientes. A incapacidade de aceitar que Deus — para quem crê — não cabe em slogans, nem se manifesta conforme interesses momentâneos. O raio não escolheu lado. Escolhemos nós o que fazer com ele: aprender, refletir ou manipular. E essa escolha diz muito mais sobre a terra do que sobre o céu.

 

José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.

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