A ignorância — entendida não como ofensa, mas como ausência de conhecimento e de informação qualificada — tem produzido um fenômeno inquietante: pessoas se posicionam com veemência sobre temas complexos sem medir as consequências diretas desses fatos na própria vida. Opina-se, torce-se, compartilha-se, mas raramente se aprofunda. A emoção substitui a análise. A ideologia ocupa o espaço da responsabilidade.
No caso de conflitos internacionais, como uma a guerra envolvendo o Irã, vê-se com frequência a formação de “torcidas”. Ah! Se foi o Trump que iniciou então ele está certo, toma-se um lado como se fosse disputa esportiva. Entretanto, guerras não são jogos. São movimentos geopolíticos que desorganizam cadeias de produção, alteram rotas comerciais e impactam diretamente a economia global.
O Estreito de Ormuz, por exemplo, é passagem estratégica de grande parte do petróleo consumido no mundo, e de um lado está o Irã, Emirados Árabe e Omã. Qualquer instabilidade ali não permanece restrita ao mapa: ela chega ao posto de combustível do bairro, ao valor do gás de cozinha, ao preço dos alimentos transportados por caminhões movidos a diesel, porque por ali passa quase todo o fornecimento de petróleo do mundo, e quando há problemas de fornecimento de petróleo, ou quando o petróleo sobe, não sobe sozinho.
Ele puxa a inflação, encarece o transporte, pressiona o orçamento público e, inevitavelmente, o governo repassa custos à população — seja por aumento direto de preços, seja por reajustes em tarifas, seja por maior carga tributária para equilibrar contas. O resultado é sentido na feira, na conta de luz, na prestação do carro. A guerra distante se transforma em aperto doméstico.
Ainda assim, muitos vibram ou condenam com base em narrativas simplificadas, alimentadas por fragmentos de informação e discursos passionais. Não se pergunta: “Como isso me afetará?” ou “Qual será o impacto estrutural dessa escalada?”. A desinformação cria a ilusão de compreensão. A pessoa sente que sabe, mas apenas reproduz. E, ao reproduzir, fortalece polarizações que pouco contribuem para análises maduras.
Esse comportamento revela algo mais profundo: a dificuldade contemporânea de lidar com a complexidade. Questões internacionais envolvem interesses econômicos, energéticos, estratégicos e históricos. Reduzi-las a slogans é confortável, mas perigoso. A superficialidade cobra seu preço, e ele costuma vir na forma de crise econômica, instabilidade social e insegurança cotidiana.
Informação de qualidade não é luxo intelectual, é instrumento de autopreservação. Entender minimamente como funciona a dinâmica do petróleo, das rotas marítimas e das decisões políticas permite que o cidadão perceba que sua vida está conectada ao mundo de maneira muito concreta. Não se trata de abandonar convicções, mas de sustentá-las com consciência das consequências.
A desinformação transforma cidadãos em torcedores de causas que não compreendem integralmente. E torcer, nesse caso, pode significar apoiar movimentos que atingirão o próprio bolso, o emprego e a estabilidade familiar. Pensar antes de se posicionar não é abrir mão de opinião e preferências e não dar atestado de desinformação.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.