Articles

13h30

Flexibilização. Perigo.

Muito triste o que estamos acompanhando como testemunhas do processo de flexibilização de conceitos. Não estou falando de valores, porquanto os sei são sempre condizentes com a estrutura social, religiosa de um tempo, de uma época. Falo de um fenômeno silencioso, mas profundamente transformador, que parece reestrutura a sociedade contemporânea: a flexibilização dos conceitos. Ideias que durante décadas — ou séculos — eram consideradas relativamente estáveis passaram a ser reinterpretadas, relativizadas ou moldadas conforme interesses momentâneos, emoções coletivas ou conveniências individuais. Não se trata apenas de mudança cultural, algo natural em qualquer civilização viva. O que chama atenção é a velocidade e a intensidade com que valores, definições e referências vêm sendo dissolvidos.

Muito se lê por aí um tal o certo passou a ser errado e o errado, a depender, pode ser o certo. Falo de  conceitos antes tratados como pilares tornam-se negociáveis. Verdade, mérito, responsabilidade, autoridade, liberdade, família, ética e até ciência passaram a sofrer uma espécie de elasticidade social. Dependendo do contexto, do grupo ou da narrativa dominante, uma mesma atitude pode ser considerada heroica ou condenável. A coerência , a lógica foge  à conveniência emocional, pessoal ou de grupo. Lamentável. 

Parte desse processo nasce de uma intenção legítima. A sociedade evoluiu ao questionar dogmas rígidos, preconceitos históricos e estruturas injustas. A revisão crítica de conceitos foi fundamental para avanços civilizatórios importantes. O problema começa quando o movimento deixa de buscar equilíbrio e passa a tratar toda referência estável como opressão ou atraso. Sem parâmetros minimamente sólidos, instala-se uma cultura de percepções fragmentadas, onde cada indivíduo reivindica sua própria verdade como absoluta. As redes sociais aceleraram esse fenômeno. A lógica digital privilegia impacto imediato, emoção e identificação grupal, não reflexão profunda. Conceitos complexos são reduzidos a slogans. Debates tornam-se tribunais emocionais. A validação pública substitui a análise racional. Em poucos segundos, reputações são destruídas, ideias são simplificadas e julgamentos coletivos são formados sem qualquer maturação crítica.

No campo político, essa flexibilização gera outro risco: a erosão da confiança coletiva. Quando palavras perdem significado estável, o debate público se torna manipulável. Termos como democracia, liberdade e justiça passam a ser usados como instrumentos retóricos, muitas vezes desvinculados de seus próprios princípios. A linguagem deixa de esclarecer e passa a funcionar como ferramenta de mobilização emocional. O resultado é uma sociedade cada vez mais cansada, polarizada e insegura, porque o ser humano necessita de referências e de estabilidade emocional. Não de rigidez absoluta, mas de alguma estabilidade ética e conceitual que permita convivência, previsibilidade e construção de sentido. Civilizações não sobrevivem apenas de inovação; sobrevivem também de continuidade.

Flexibilizar conceitos pode ser sinal de maturidade quando amplia compreensão e corrige injustiças. Mas se torna perigoso quando dissolve completamente os limites entre verdade e opinião, entre liberdade e irresponsabilidade, entre acolhimento e permissividade. Uma sociedade incapaz de definir com clareza aquilo que considera essencial corre o risco de perder não apenas seus referenciais, mas sua própria capacidade de diálogo.


José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.

Nenhuma mensagem encontrada!
2016 - 2026. Cidade da Luz. All rights reserved.
Powered by: Click Interativo | Digital Agency

We use cookies to frame information about how you use or our site and the pages you visit. Everything to make your experience more pleasant possible. To understand the types of cookies we use, click on Options. Ao click on Accepted, you consent to the use of cookies.

Accepted Options

Definitions

We want to be transparent about the data that we partners collect and how we use it, so that you can control how well your personal data is. To obtain more information, consult our privacy policy and our cookie policy.

Or what are cookies?

Cookies are saved files on your computer, tablet or phone when you visit a site.

We use the necessary cookies to make or site work in the best possible way and always to improve our services.

Some cookies are classified as necessary and allow central functionality, such as security, network management and accessibility. These cookies can be collected and set so that you start your navigation or when you use any resource that I require.

Manage consent preferences
Analysis Cookies

We use third-party analytics software to collect statistical information about visitors to our website. These plugins may share the content you provide to third parties. We recommend that you read their privacy policies.

Block / Activate
Google Analytics
Necessary
Strictly necessary cookies

They are those that allow you to browse the site and use essential features, such as safe areas, for example. These cookies do not store any information about you that can be used in product or service communication actions or to remember the pages navigated on the website.

Block / Activate
Site
Necessary