Não sou católico, mas, efetiva e verdadeiramente sou cristão, ou pelo menos tento ser. Permitam-me a autobiografia circunstanciada: procuro ser há quarenta e oito anos, por ter fundado a Cidade da Luz. Então, acho de bom alvitre se falar, pensar-se sobre Jesus nestes dias que os católicos chamam de Semana Santa, o que abraço, haja vista que é sempre bom refletir sobre os processos da vida. E toda a preparação para as lembranças da Semana Santa passa pelo ápice da morte e renovação da vida – não cremos, os espíritas, na ressurreição, mas na proposta de renovação. Aí surge uma verdade incômoda que muitos evitam encarar: pessoas não mudam porque dizem que mudaram. Mudam, no máximo, de comportamento quando lhes convém. Ajustam o discurso, refinam a aparência moral, controlam impulsos em público — mas continuam sendo, em essência, aquilo que sempre foram. Os políticos estão sempre nos dando e ratificando esta certeza, e aqui não tenho uma visão cínica. É observação. Jesus foi direto ao ponto ao desmontar qualquer romantização ingênua sobre a natureza humana: “Porventura colhem-se uvas dos espinheiros ou figos dos abrolhos?” A resposta é óbvia. E justamente por isso, ignorada. O fruto não mente. Ele expõe o que está na raiz. Não adianta exigir do espinheiro aquilo que ele nunca decidiu deixar de ser.
O problema, então, começa quando se cria a expectativa de mudança sem evidência de transformação. Espera-se lealdade de quem sempre foi conveniente, verdade de quem sempre foi estratégico, coerência de quem vive de adaptação. Isso não é fé nas pessoas — é recusa em enxergar o real. E na Semana Santa, esse contraste se torna ainda mais gritante. Cristo não veio apenas repetir a lei. Ele deslocou o eixo moral. “Olho por olho, dente por dente” era a lógica da equivalência. Justiça proporcional. Resposta na mesma moeda. Mas Ele rompe com isso ao dizer: “Eu, porém, vos digo…”. E o que vem depois não é suavização — é exigência mais profunda. Amar o próximo. Perdoar. Não reagir na mesma lógica. Isso não é comportamento externo. É mudança de natureza. Aqui está a incoerência que muitos preferem ignorar: há quem se declare seguidor de Cristo, mas viva integralmente na lógica anterior. Fala de amor, mas pratica exclusão seletiva. Defende perdão, mas cultiva ressentimento. Cita ensinamentos elevados, mas age por impulso, orgulho e julgamento. Não é falha pontual. É padrão. E padrão revela mais do que discurso.
Existe uma diferença clara entre quem está em processo de transformação e quem apenas se adapta socialmente. O primeiro reconhece suas contradições e luta contra elas. O segundo aprende a escondê-las melhor. Um muda o fruto ao longo do tempo. O outro muda apenas a narrativa. O que quero dizer? Nada. Só refletir na Semana Santa.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.