Daqui uns dias será o Natal, mas não vejo compromisso com o real sentido desta festa, quando assisto, por exemplo, ao ressentimento travestido de necessidade de vingança, de torcida pelo mal do outro. Fiquei estarrecido com os comentários nas redes, diante da notícia de uma nova e necessária cirurgia de emergência do presidente Lula, em decorrência de uma queda ocorrida em outubro passado. As manifestações diante do fato são de uma repugnância sem medida: “Agora ele sai”, “já morre tarde” e por aí vai. O ápice é uma figurinha com o presidente no caixão e a legenda: esperança.
É certo que o período de eleições é sempre carregado de estresse, sentimentos como esperança, liberdade de escolha, se misturam com a desilusão, o medo, a raiva e, infelizmente, até o ódio, quando se perde as expectativas de vitória de suas escolhas. As emoções se colam em opiniões divergentes e ânimos exaltados. Penso: as fraturas precisam ser cuidadas – a maioria escolheu. Pronto. Nesses últimos anos, no entanto, o racha ideológico extrapolou o período do processo eleitoral, as famílias se desentenderam, as divergências invadiram ambiente de trabalho e desestruturaram amizades antigas. O ódio passou a oxigenar pessoas e até instituições. Há quem diga
que não existe polarização, mas inconformismo revoltado da ideologia que perdeu e consequente confronto dos que ganharam. Falam-se de narrativas que não podem vencer.
O assunto tem preocupado os estudiosos do comportamento humano, que recebeu um nome específico: “síndrome do estresse político”. Apesar de ainda não fazer parte dos manuais de diagnósticos clínicos, o problema já é sentido nos consultórios, os profissionais de saúde mental relatam um aumento das queixas relacionadas ao processo eleitoral, e o pior - a sua extensão para a vida cotidiana. As consequências geram impactos e enfermam pessoas, pois a radicalização guia uma forma emotiva e descompensada de
encarar os fatos, que considera a opinião divergente como uma ameaça estrutural de vida da pessoa, minando a sua saúde existencial, afirmam alguns psiquiatras. Haja vista, que a questão deixa de ser ideológica e intelectual, tornando-se um processo obsessivo, em uma espécie de monodeísmo, onde tudo gravita em torno de pertencer a um grupo e “lutar” pelos ideais defendidos por este sistema. Além
disso, a polarização pode aumentar a rigidez cognitiva, levando as pessoas a adotarem uma mentalidade de “tudo ou nada”, que se associa às próprias frustrações recalcadas, fazendo do ambiente polarizado uma espécie de válvula de escape para as suas próprias enfermidades emocionais. A ausência de flexibilidade cognitiva dificulta o diálogo e aumenta a desconexão com os outros, perpetuando
o ciclo de estresse, angústia e violência. Mas é Natal.
Líder espírita, fundador da Cidade da Luz, palestrante espírita e mestre em Família pela UCSal. Também é apresentador de rádio.