No dia 2 de fevereiro, repete-se um ritual que já se tornou previsível: flores lançadas ao mar, imagens comoventes, discursos sobre respeito e diversidade. Yemanjá é celebrada publicamente, quase consensualmente. No entanto, essa devoção coletiva convive com um paradoxo profundo: a mesma sociedade que exalta o orixá permanece omissa – quando não conivente – diante da violência simbólica e material sofrida pelas religiões de matriz africana.
Trata-se menos de ignorância e mais de uma escolha moral. Hannah Arendt advertiu que o mal não se sustenta apenas pela ação direta, mas também pela banalidade da omissão. O silêncio, quando sistemático, deixa de ser neutralidade e passa a ser posição. Ao celebrar Yemanjá como ícone cultural, mas evitar a defesa explícita do candomblé e da umbanda como religiões legítimas, pratica-se uma forma sofisticada de exclusão: aceita-se o símbolo, rejeita-se o sujeito.
Ao se furtar ao posicionamento público contra o racismo religioso, o indivíduo opta por preservar o próprio conforto social. Jogar flores ao mar não custa reputação, na visão de muitos – todo mundo faz; defender terreiros atacados, sacerdotes perseguidos e fiéis estigmatizados exige enfrentamento. A devoção se torna, assim, um gesto estético, como dizem atualmente – de boutique, desprovido de compromisso ético.
Alguém já disse que a esfera pública é o espaço onde valores se legitimam. Quando a fé de matriz africana é tolerada apenas enquanto manifestação folclórica, e não como expressão religiosa plena, nega-se a ela o direito de existir no debate público em condições de igualdade. O resultado é um reconhecimento parcial, que disfarça a exclusão sob o verniz da celebração cultural.
Há ainda um elemento estrutural que não pode ser ignorado. Estudiosos da cultura pós-colonialíssimo apontam que o colonialismo não apenas oprime corpos, mas hierarquiza culturas e espiritualidades. A aceitação seletiva de Yemanjá – desvinculada de sua matriz religiosa e de seus praticantes – reproduz essa lógica colonial: o sagrado negro é consumido, mas o povo negro continua sendo alvo de deslegitimação.
Defender Yemanjá apenas no campo simbólico é uma forma de esvaziamento. Toda fé, entendo, exige coerência entre narrativa e ação. Sem essa coerência, o rito perde densidade moral e se converte em encenação socialmente aceitável. Liberdade religiosa não se comprova com flores, mas com posicionamento público, defesa institucional e coragem ética.
Enquanto o Brasil insistir em celebrar seus orixás sem assumir a defesa de suas religiões, continuará preso a uma contradição que não é apenas religiosa, mas moral. O mar pode receber flores todos os anos. A dívida ética, porém, permanece em terra firme – à espera de quem esteja disposto a enfrentá-la.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.