Não é uma cena hipotética, aconteceu. O Big Brother Brasil, que continua incrivelmente (sentido negativo) dando audiência. Durante uma tarefa, um participante sofre uma crise convulsiva. Ao redor, ninguém presta socorro imediato, temendo perder posição no jogo. Em outro momento, um participante avança fisicamente sobre uma mulher, segurando-a pelo pescoço, num gesto que evoca o assédio sexual e o estupro presumido. O espetáculo continua. O jogo segue. O público assiste. E nos revelamos como sociedade.
Não se trata apenas de entretenimento, mas de um retrato simbólico de uma sociedade adoecida, onde a competitividade extrema anestesia a empatia e a dignidade humana se torna negociável. Hannah Arendt, ao tratar da “banalidade do mal”, alertava que a violência nem sempre nasce do ódio explícito, mas da normalização da indiferença. Quando ninguém age, o mal se instala como rotina. A filosofia também ajuda a compreender esse cenário ao analisar as sociedades do espetáculo e do controle, nas quais os corpos são vigiados, testados e expostos até o limite. O sofrimento vira conteúdo. A violência, narrativa. Já o psicanalista Erich Fromm lembrava que sistemas baseados apenas na competição tendem a produzir personalidades insensíveis, orientadas mais pelo medo de perder do que pelo dever de cuidar.
O reality show, nesse sentido, deixa de ser apenas um programa de TV e passa a funcionar como um espelho cruel: revela o quanto estamos dispostos a relativizar a vida, o respeito e o outro em nome da vitória, da audiência ou da sobrevivência simbólica. Quando o jogo vale mais que o ser humano, algo em nós já perdeu.
Cabe também questionar o papel do público e da mídia nesse processo. Ao transformar episódios de violência, omissão e abuso em “polêmica” ou “estratégia de jogo”, corre-se o risco de legitimar comportamentos que, fora da tela, seriam inaceitáveis. A audiência, ao consumir e comentar esses fatos como entretenimento, participa ativamente da engrenagem que normaliza a brutalidade. Precisamos falar com a indignação de quem se choca, ao ver o ser humano como um mero animal pensante. Vemos, não apenas no BBB, mas por todos os lados a indústria cultural banalizando o sofrimento, ela contribui para a formação de sujeitos cada vez mais indiferentes à dor alheia — e a indiferença, sabemos, é terreno fértil para toda forma de violência, e de surgimento do autoritarismo.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.