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13h16

Foi racismo ou não?

Carla Perez usou as redes sociais para se posicionar após a repercussão de uma cena ocorrida nesse último domingo, 15. Na ocasião, a artista subiu nos ombros de um segurança para se aproximar do público durante o carnaval. No comunicado, ela reconheceu o erro e afirmou estar ciente da responsabilidade histórica envolvida na situação. A imagem circula. Parte do público acusa racismo. Outra parte reage dizendo: exagero, patrulha, vitimismo. “Foi só uma brincadeira.” “Foi só um momento do carnaval.” E assim, o debate se divide entre culpa e inocência, como se a única pergunta possível fosse: houve ou não houve intenção racista? Honestamente, penso que não. Todavia, talvez esta seja a pergunta errada. O ponto central não está necessariamente na intenção subjetiva da artista. Está na representação objetiva do gesto. Em sociedades marcadas por uma história de escravidão, subalternização e hierarquização racial, certos símbolos não são neutros. Um corpo negro servindo de base física para a elevação de um corpo branco — ainda que em contexto festivo — não é apenas uma cena isolada. É uma imagem que dialoga com séculos de construção social.

A filosofia contemporânea tem insistido numa distinção fundamental: o racismo não é apenas uma atitude individual, é uma estrutura. Ele se infiltra na linguagem, nas imagens, nos automatismos culturais. Pierre Bourdieu falaria em habitus — disposições incorporadas que reproduzem desigualdades sem que os agentes tenham plena consciência disso. Muitos estudiosos do comportamento apontam para as redes invisíveis de poder que atravessam os corpos e organizam as posições sociais. Não se trata apenas de quem quis ofender, mas de como a cena ecoa uma ordem histórica. É possível — e até provável — que não tenha havido maldade. Mas a ausência de intenção não elimina o significado social. A naturalidade com que certos gestos acontecem é, muitas vezes, o indício mais eloquente de quanto ainda carregamos estruturas não resolvidas.

Quando alguém diz que é “bobagem”, talvez esteja expressando cansaço diante do excesso de conflitos simbólicos do nosso tempo. Mas também pode estar revelando dificuldade em perceber que o racismo estrutural raramente se apresenta de forma explícita. Ele aparece no detalhe banal, no riso despreocupado, na cena aparentemente inocente. Desarraigar processos racistas exige mais do que punir culpados. Exige consciência histórica. Exige sensibilidade simbólica. Exige compreender que imagens constroem mentalidades. O que parece pequeno pode ser pedagogicamente grande. Não se trata de cancelar pessoas. Trata-se de amadurecer a sociedade. Talvez o verdadeiro progresso não esteja em provar se alguém foi racista — mas em aproveitar o episódio para refletir sobre o que ainda carregamos sem perceber.


José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.

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