A morte trágica de uma jovem após uma queda no bungee jumping deveria ter provocado apenas o que qualquer sociedade minimamente civilizada espera diante da dor de tamanha monta: silêncio, respeito e empatia. Mas o que emergiu em muitos comentários foi algo perturbador — uma espécie de necrofilia moral, onde o corpo morto ou a tragédia de uma mulher, pelo conceito de alguns ser bonita, se transforma em objeto de escárnio, sexualização ou desumanização. Não se trata de casos isolados nem de “humor ácido”, como alguns tentam justificar. Há uma estrutura cultural que alimenta esse comportamento. E parte dele se estabelece em setores da chamada cultura redpill, onde a mulher é frequentemente reduzida a estereótipos de interesse, manipulação ou inferioridade moral. Esse ambiente produz uma pedagogia do desprezo: ensina homens, sobretudo jovens, a enxergarem mulheres não como sujeitos de dignidade, mas como adversárias ou objetos descartáveis, em todo sentido e natureza.
Quando essa lógica alcança até mesmo a morte, o sinal é grave. A fronteira ética foi detonada. Transformar uma vítima fatal em alvo de comentários degradantes revela algo maior que insensibilidade. Revela uma violência simbólica profunda, que naturaliza a humilhação feminina como entretenimento. Pierre Bourdieu, sociólogo francês já alertava que a violência simbólica é uma das formas mais eficazes de dominação, justamente porque se infiltra na linguagem, no hábito e na cultura. O problema é que o ambiente digital amplifica isso. Algoritmos premiam choque, brutalidade e desumanização. O comentário mais cruel ganha engajamento. A piada mais abjeta recebe risos e compartilhamentos. Assim, o grotesco vai sendo normalizado. Dá verdadeiramente nojo, além de uma indignação que deve ser legitimada por ações.
Como fogo de monturo, que queima escondido sob a terra até explodir em chamas visíveis, essa misoginia subterrânea cresce, se organiza e ganha força. Não basta indignação episódica. É preciso resposta estrutural. O Ministério Público precisa tratar manifestações que incentivem violência, humilhação sistemática e discurso misógino organizado com a gravidade devida. Plataformas digitais precisam ser responsabilizadas, quando permitem que comunidades de ódio prosperem sob o pretexto de liberdade de expressão. Escolas e universidades precisam discutir masculinidade, ética digital e educação emocional. E organizações da sociedade civil devem ocupar esse espaço com campanhas permanentes de enfrentamento. Porque o que está em jogo não é apenas o respeito à memória de uma jovem. É o tipo de sociedade que estamos construindo.
Uma sociedade se mede pela forma como trata seus mortos — e, sobretudo, pela forma como trata suas mulheres. Quando a morte de uma mulher vira motivo para celebração, desprezo ou erotização, não estamos diante de simples comentários. Estamos diante de sintomas de uma doença social. E doenças sociais não se curam com silêncio. Se enfrentam. Sem tréguas.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.