O presidente da Liga Independente das Escolas de Samba no Grupo Especial do Rio, Gabriel David, gerou grande controvérsia ao considerar a blogueira Virgínia Fonseca a mulher mais relevante nesse momento no Brasil. Sim, ele falou de forma midiática, mas isto também diz muito sobre o povo brasileiro e seu estado cultural. Não se trata, em absoluto, de desqualificar quem quer que seja, mas bater de frente com a questão: por que ela é a mais relevante? Que contribuição à sociedade brasileira agrega? Infelizmente, nada. Um povo educado – no sentido mais amplo e filosófico do termo – reconhece na cultura um espelho e uma escola. Cultura é paideia, diriam os gregos: formação do espírito, cultivo da sensibilidade, lapidação da consciência histórica. Não se trata apenas de saber nomes célebres, mas de compreender processos, raízes, matrizes simbólicas. É nesse ponto que o Brasil contemporâneo revela uma contradição inquietante.
Vivemos numa era de superexposição. Artistas, influenciadores e personagens midiáticos se tornam conhecidos em questão de horas. Mas o que se torna notável não é, necessariamente, o que é estruturalmente relevante. O espetáculo substitui a substância. A repetição substitui o reconhecimento. A notoriedade substitui o conhecimento. Nesse cenário, é sintomática a quase total ausência de familiaridade do brasileiro médio com figuras como Tatiana Coelho de Sampaio. Não se trata aqui de promover uma personalidade específica como ícone obrigatório, mas de problematizar o fenômeno: como é possível que trajetórias intelectuais, artísticas ou científicas de profundidade atravessem décadas praticamente invisíveis ao grande público, enquanto manifestações efêmeras ocupam o centro do debate nacional?
A resposta não é simples, mas passa por um deslocamento no eixo da formação cultural. Theodor Adorno já alertava para a indústria cultural como produtora de homogeneização e superficialidade. Guy Debord, ao falar da “sociedade do espetáculo”, apontava para a transformação da realidade em representação contínua. No Brasil, essa lógica encontra terreno fértil numa educação historicamente desigual e numa mídia que privilegia o impacto sobre o aprofundamento.
Perguntado qual seria o caminho? Honestamente, não saberia responder, mas que gera desconforto uma quase Nobel de Medicina, que está revolucionando a área médica, colocando já meia dúzia de tetraplégicos para se movimentarem, e essa ação, sua pesquisadora, ao que parece, não tem relevância nacional. Fato: um povo que não conhece seus próprios construtores simbólicos corre o risco de se tornar refém de narrativas passageiras – e de esquecer que cultura é, antes de tudo, permanência.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.