A internet gerou especialistas em tudo que se pode imaginar, desde a melhor forma de se usar o micro-ondas, até análise sobre guerra. Discute-se, hoje, por exemplo, guerra como quem discute futebol. A depender do perfil ideológico, escolhe-se um lado, veste-se uma camisa e se comemora cada avanço militar como se fosse gol em final de campeonato. Repete-se, com aparente lucidez, que não se está defendendo um regime, mas um princípio. Contudo, no meio dessa retórica supostamente racional, naturaliza-se a morte.
A guerra passa a ser tratada como espetáculo estratégico. Fala-se em “baixas”, “danos colaterais”, “alvos neutralizados”. As palavras higienizam o horror. O que desaparece do discurso são os civis – as crianças soterradas, as mães que correm com filhos nos braços, os idosos que não têm para onde fugir. Some o rosto. Some o nome. Fica apenas o número. E número não dói. Há algo profundamente inquietante quando se comemora a morte porque ela atinge o “lado errado”. A vida passa a valer conforme o alinhamento político,a bandeira hasteada, a narrativa dominante. O critério deixa de ser humano e se torna ideológico, de lado. E, quando a ideologia define quem merece viver ou morrer, já não falamos apenas de conflito armado, falamos de erosão moral.
O mais grave é perceber que essa indiferença se espalha com rapidez. Redes sociais transformam tragédias em memes, explosões em vídeos compartilháveis, cadáveres em estatísticas que confirmam convicções prévias. A empatia, que deveria ser instinto, torna-se opcional. A compaixão vira fraqueza. E a indignação só é acionada quando convém ao próprio discurso. Não se trata aqui de defender regimes, governos ou estratégias militares. Trata-se de defender um princípio elementar: a vida humana não pode ser relativizada por conveniência política. Quando celebramos mortes porque fortalecem a nossa narrativa, estamos, silenciosamente, aceitando que a vida perdeu valor universal. A guerra já é, por si, a falência do diálogo.
O debate público tem se tornado tão polarizado que já não se contextualizam as consequências reais – econômicas, sociais e humanitárias – de um conflito. Fala-se em guerra como gesto de força ou correção histórica, mas se ignora que ela reorganiza o mundo inteiro. O Estreito de Ormuz – fronteira marítima estratégica onde o Irã é protagonista – concentra uma das maiores rotas de escoamento de petróleo do planeta. Grande parte do petróleo mundial passa por ali. Qualquer instabilidade nesse corredor impacta o preço da energia, dos alimentos, do transporte. A inflação sobe, cadeias produtivas sofrem, países vulneráveis entram em colapso. A guerra deixa de ser “lá” e passa a ser “aqui”, no supermercado, no combustível, no emprego.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.