Os veículos de notícias entraram em modo manchete com o pronunciamento da ex-primeria dama, Michele Bolsonaro, na semana passada. Ela como dizem por aí: “colocou fogo no parquinho.”
Analistas esmiuçaram o conteúdo, buscaram identificar intenções; outros falaram em movimento para se cacifar na disputa presidências, em suma: houve história para todos os lados. Estranhei, pessoalmente, que não vi analista algum fazem uma observação, que a mim foi translúcida – ela reagiu (e bem que fez) ao machismo que, segundo ela, vinha sofrendo, ainda que em momento algum dos seus quase trinta minutos de “desabafo”, ela só elencou exatamente o que as feministas abraçam em denúncias e ações de conscientização social. Honestamente, vi uma contradição que precisa ser encarada sem rodeios: muitas mulheres conservadoras denunciam o machismo quando ele as atinge, mas rejeitam, combatem ou ridicularizam pautas históricas do feminismo que existem justamente para enfrentar essas estruturas.
Ao tornar público que se sente desrespeitada pelos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro, Michelle traz à tona um problema antigo: o lugar da mulher dentro de espaços de poder marcados por relações masculinas duras, hierárquicas e, muitas vezes, desconsideradoras da sua voz. O ponto, entendo, sem qualquer viés que não seja os da consideração sociais e psicológicas da estrutura de um povo, não é discutir aqui quem tem razão no conflito familiar ou político. O ponto é outro: quando uma mulher percebe na própria pele o desrespeito, a invisibilização ou a tentativa de silenciamento, ela está diante de uma realidade que o feminismo denuncia há décadas. De outra parte, é curioso observar como muitas mulheres que se dizem defensoras da família, da tradição e dos valores conservadores só reconhecem o machismo quando ele bate à sua porta. Antes disso, tratam a pauta feminista como exagero, vitimismo ou ideologia.
Entendo, de conclusão, que o feminismo, em sua essência, nunca foi sobre destruir famílias ou criar guerra entre homens e mulheres. Foi, e continua sendo, uma luta por dignidade, respeito e igualdade de espaço. Se mais mulheres conservadoras compreendessem isso, talvez houvesse menos resistência e mais avanço. Porque o machismo não escolhe ideologia. Ele não poupa mulheres de direita, de esquerda, religiosas ou laicas. Ele se manifesta onde encontra estrutura para isso. Negar essa realidade não enfraquece o feminismo. Enfraquece as próprias mulheres.
Talvez esteja na hora de entender que algumas causas não pertencem a partidos nem a grupos políticos. Pertencem à experiência humana. E o respeito à mulher é uma delas.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.