Sim, a Venezuela vive uma ditadura, mas a forma como parte significativa da opinião pública tem reagido às ações dos Estados Unidos naquele país caribenho revela um problema mais profundo do que o episódio em si: a consolidação de uma leitura rasa, emocional e juridicamente negligente das relações internacionais. Reduz-se uma questão estrutural, de enorme repercussão sistêmica, a slogans morais e a juízos imediatistas que ignoram deliberadamente o Direito Internacional.
Independentemente de simpatias ou rejeições ao governo venezuelano, e a sua legitimidade que, por sinal, não existe, há fatos que não admitem relativização. Não houve autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas para a invasão e sequestro do ditador, sim, ditador, mas não podemos, em nome de visão estreita de mundo convalidar tais ingerências. Os Estados Unidos, assim, agem como bucaneiros. Foram derrubados pilares da ordem internacional construída justamente para conter o arbítrio e a lógica da força.
O problema, portanto, não é apenas o ato em si, repito, mas o precedente que ele estabelece. Ao naturalizar a violação da soberania de um Estado sem respaldo multilateral, abre-se espaço para que outros países façam o mesmo, invocando razões próprias, igualmente subjetivas. O resultado é a corrosão progressiva do sistema internacional, no qual o Direito cede lugar à conveniência política e à assimetria de poder.
Assim, chama atenção, nesse contexto, a rapidez com que se esvazia o papel da ONU. Se o Conselho de Segurança é ignorado sempre que se torna inconveniente, sua existência se torna meramente decorativa. O recado ao mundo é claro: as normas valem apenas quando coincidem com os interesses das grandes potências. Esse duplo padrão não fortalece a ordem internacional – ele a fragiliza.
É preciso afirmar o óbvio que muitos preferem contornar: criticar ações unilaterais não é defender governos, ideologias ou práticas internas questionáveis. É defender limites. É sustentar que, sem regras minimamente respeitadas,o sistema internacional retorna à lei do mais forte. O aplauso fácil pode ser politicamente confortável no curto prazo. No longo, ele cobra seu preço.
Precedentes criados sob entusiasmo moral costumam voltar, mais adiante, como instrumentos de instabilidade, conflito e insegurança global. A reação entusiasmada de parte da opinião pública a ações unilaterais contra a Venezuela expõe não apenas um empobrecimento do debate, mas uma disposição inquietante de tratar o Direito Internacional como um detalhe burocrático – algo a ser respeitado apenas quando não atrapalha o enredo moral da vez. A análise rasa virou regra; a reflexão incômoda, exceção.
José Medrado possui múltiplas faculdades mediúnicas, é conferencista espírita, tendo visitado diversos países da Europa e das Américas, cumprindo agenda periódica para divulgação da Doutrina, trabalhos de pintura mediúnica e workshops, escreve para o BNEWS, Farol da Bahia e o jornal A tarde.